60 anos de ACNUR: Perspectivas de futuro

Alusiva ao aniversário da Agência da ONU para os refugiados, esta obra reúne excelentes artigos sobre a temática do refúgio. O primeiro, do Professor André de Carvalho Ramos, esclarece a diferença entre asilo e refúgio, comentando, inclusive, o polêmico Caso Battisti. Há trabalhos sobre os haitianos no Brasil, sobre o funcionamento do CONARE e outros tantos temas fundamentais da atualidade. O livro foi organizado pelos Professores Guilherme Assis de Almeida, Gilberto Rodrigues e André de Carvalho Ramos. Leia aqui o texto integral do livro 60 anos de ACNUR.

El Roto

Publicado no El País de 25 de janeiro de 2012.

As revoltas no mundo árabe: um desejo de Ocidente? por Alain Badiou

A Revue des Livres reproduziu, hoje, um extrato do livro Le réveil de l’histoire, de Alain Badiou, que começa assim: “no fundo, nossos governantes e nossas mídias dominantes propuseram  uma interpretação simplória das revoltas no mundo árabe: o que lá se expressou é o que podemos chamar um desejo de Ocidente. Um desejo de ‘beneficiar-se’ de tudo isto do qual nós, sonolentos satisfeitos dos países ricos, já ‘nos beneficiamos’. Um desejo de ser, enfim, integrados ao ‘mundo civilizado’ que os Ocidentais, incorrigíveis descendentes de colonos racistas,  acham-se tão certos de representar a ponto de organizarem ‘tribunais’ internacionais para julgar quem afirma outros valores – sem dúvida, por vezes, realmente pouco recomendáveis –, ou quem apenas simula turbar a pesada tutela da ‘comunidade internacional’ – certamente, por vezes, de modo puramente interesseiro. Assim fazendo, os Ocidentais, sob o manto do Direito, esquecem que seu pretenso poder de definir ‘o Bem’ não é mais do que o nome modernizado do intervencionismo imperial”. Leia aqui as páginas 76 a 81 do livro, em francês.

Imigração na gaveta, de Claudia Antunes

Na Folha de S. Paulo de hoje

RIO DE JANEIRO - Dorme em alguma gaveta do governo federal uma proposta de Política Nacional de Imigração e Proteção ao Trabalhador Migrante que foi posta em consulta pública em 2010. O debate voltou à tona com o afluxo recente de haitianos, um dos temas que seriam tratados ontem na visita de Dilma a Porto Príncipe. No caso dos haitianos, o governo improvisou uma solução com vistos especiais de trabalho, mas ainda não deu conta dos que já estavam a caminho e chegaram à Amazônia sem documentos. Tendo pago os coiotes que os trouxeram, eles resistem a voltar para o país mais pobre do hemisfério.

Elaborada pelo Conselho Nacional de Imigração, ligado ao Ministério do Trabalho, a proposta lançada há dois anos é coerente com a convenção da ONU sobre o tema. À espera de ratificação pelo Congresso, o texto internacional baseia-se na defesa da livre circulação de trabalhadores. Hoje, o assunto é regido no Brasil pelo Estatuto do Estrangeiro, de 1980, que proíbe, por exemplo, que estrangeiros se envolvam em atividade política, incluindo a difusão de programas partidários do seu país de origem. Um projeto de lei para substituí-lo tramita no Legislativo, mas é considerado restritivo por defensores dos direitos dos imigrantes.

Segundo especialistas como Deisy Ventura, da USP, o assunto não sai do limbo porque há divergências significativas. A visão mais tolerante está em confronto com outras que privilegiam enfoques de segurança ou de mercado, incluindo a que advoga a seleção só de profissionais qualificados. O problema é que, pelo peso crescente em sua região, o Brasil tende a atrair imigrantes pobres em maior número, ainda que comecem a surgir candidatos fugidos da crise no sul da Europa. É preciso buscar meios de conciliar os dois movimentos, fazendo jus à tradição de acolhimento que o país vende como parte do seu “poder brando”.

Claudia Antunes, jornalista carioca, formada em jornalismo pela UFRJ, está na Folha desde 2000. Foi coordenadora de redação da Sucursal do Rio (2000-2005), editora de “Mundo” (2006-2009) e atualmente é repórter especial do jornal. Antes, trabalhou por 13 anos no “Jornal do Brasil”, onde foi editora de “Internacional”. Entre 2005 e 2006, foi bolsista da Fundação Nieman para o Jornalismo, na Universidade Harvard.

Fronteira social e fronteira de serviço, de Omar Ribeiro Thomaz e Sebastião Nascimento

Do Estado de S. Paulo, 28/1/2012 O governo brasileiro celebrou o segundo aniversário do devastador terremoto haitiano com o anúncio de medidas ainda mais severas para coibir a já difícil entrada de haitianos no País. Criando um perverso precedente, é a primeira vez, desde a 2ª Guerra, que se impede a uma nacionalidade específica solicitar a proteção do refúgio. Canais oficiais e semioficiais de divulgação foram mobilizados para reempacotar medidas que vinham sendo preparadas para reforçar a seletividade migratória no Brasil como se fossem uma resposta imediata à vexatória cobertura da imprensa internacional sobre a situação calamitosa dos haitianos impedidos de deixar a região fronteiriça. Dentro ou fora do País, poucos acreditaram na narrativa oficial que apresentava restrições arbitrárias como se de concessões generosas se tratasse.

O tumulto pela entrada de pouco mais que 3.500 haitianos no País ao longo dos últimos dois anos é, no mínimo, caricatural, tendo em vista não somente o volume dezenas de vezes maior de imigrantes europeus no mesmo período, mas também a dimensão centenas de vezes mais ampla da diáspora haitiana em outros países da América Latina. O Brasil nunca foi e segue não sendo destino preferencial de uma migração cuja dinâmica o Itamaraty e outros ministérios insistem em ignorar. Há por volta de 3 milhões e meio de haitianos espalhados por dezenas de países em três continentes, todos abrigando comunidades consideravelmente maiores e infinitamente mais bem acolhidas que no Brasil. Logo após o terremoto, apoiando-se numa opinião pública francamente solidária, o governo brasileiro havia anunciado projetos ambiciosos de intercâmbio e formação de quadros haitianos em áreas estratégicas como a saúde e a educação, para os quais dotações orçamentárias foram rapidamente aprovadas, mas cuja execução nunca aconteceu. Em fevereiro de 2010, com grande fanfarra se anunciou que o Brasil ofereceria pelo menos 500 bolsas a estudantes da rede universitária haitiana, atingida de modo particularmente devastador pelo terremoto. Por todo o Brasil, universidades se ofereceram para recebê-los. Era crucial que viessem rapidamente, pois suas faculdades estavam em ruínas, seus estudos paralisados e a continuidade de sua formação seria decisiva para a reconstrução. Numa irônica coincidência, foram também cerca de 3.500 os estudantes que se candidataram, no que teria sido o maior programa de intercâmbio internacional da história da educação brasileira. Somente mais de um ano e meio após a tragédia é que, a duras penas, foi possível trazer, dos 500 anunciados, não mais que 80 estudantes, alguns dos quais já tiveram sua bolsa cancelada ou limitada, sem que o Ministério da Educação tenha sido capaz de oferecer quaisquer garantias de continuidade do programa. Também na área da saúde, havia sido anunciada a construção de dez Unidades de Pronto Atendimento em Porto Príncipe, dotadas de anexos para a formação de agentes comunitários. Deveriam entrar em funcionamento ainda em 2010. Nenhuma sequer foi construída e apenas uma equipe haitiana formada por um médico e duas enfermeiras esforça-se por atuar sem sede definida. Iniciativas como essas se viram transformadas – não no Haiti, mas em Brasília – em esquálidos arremedos dos projetos iniciais, que não obstante serviram para dar imensa visibilidade ao governo brasileiro. Sempre que se questionam as razões desse fracasso, a saída invariável dos responsáveis é culpar os próprios haitianos.

Nas fronteiras brasileiras não é diferente: nas vítimas de assaltos e estupros se veem potenciais criminosos e, nos que sucumbem a endemias amazônicas, possíveis vetores de “doenças haitianas”. A missão sanitária enviada há pouco à fronteira chegou com dois anos de atraso, tarde demais para Carmelite Baptiste, de 30 anos, que morreu de dengue, doença inexistente no Haiti. Aqui, o governo tenta repetir o que tem sido sua estratégia de maior sucesso no Haiti: blindar a opinião pública brasileira de informações fiáveis e negar aos haitianos a possibilidade de falarem por si. Se não tivessem sido impedidos de deixar o isolamento nas fronteiras amazônicas, já poderiam ter demonstrado como possuem sólida formação educacional, com curso secundário, técnico ou mesmo superior, dispostos a dar o melhor de si para enviar recursos a suas famílias no Haiti. Porém, acabaram por se transformar em personagens involuntários da farsesca tradição brasileira no trato dos estrangeiros: instituições e profissionais despreparados que recorrem à mitologia de um povo supostamente simpático e gentil aos que vêm de fora. Ora, a antropofagia pode ser agradável para quem devora, mas não para quem deve pagar o preço da assimilação. Assim, o universo institucional revive uma tradição nacional tão vetusta quanto infame: a do favorecimento da imigração, sim, mas com alta seletividade, ao longo de uma história em que aos negros estrangeiros só se abririam as portas enquanto chegassem pelos porões do cativeiro.

Omar Ribeiro Thomaz, antropólogo, é professor do IFCH/Unicamp, e Sebastião Nascimento, sociólogo, é pesquisador da Flensburg-Universität (Alemanha)

Imagens: Nicolas Vial, “Restructuration” e “Intégration”, ambas publicadas no Le Monde, 2007

Haitanos hoje, nós amanhã? – artigo de Foster Brown

Do IHU Notícias: “Existem mais de dez vezes mais brasileiros na Bolívia e cinqüenta vezes mais brasileiros no Paraguai do que haitianos aqui. Dentro de fluxos chegando ao Brasil, a diáspora haitiana é ainda pequena”, constata Foster Brown, geoquímico, pesquisador do Woods Hole, professor da Universidade Federal do Acre, cientista do Experimento de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazonia (LBA) e membro da Iniciativa MAP de Direitos Humanos, em artigo publicado no Blog da Amazônia, 17-01-2012. E continua: “Em comparação, nos primeiros seis meses de 2011, mais de 300 mil portugueses regularizaram os seus passaportes para trabalhar no Brasil, mais de setenta vezes o número de haitianos que chegaram em 2011″. Leia aqui o texto integral do artigo.

Sobre o mesmo tema, leia ainda a entrevista de Rosita Milesi ao IHU, Brasil e os desafios da lei de migrações e a matéria Cólera no Haiti: ONU é alvo de duas queixas, do UOL Notícias, traduzido do Le Monde.

 

“Imigração seletiva” e “drenagem de cérebros”, projeto da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência do Brasil

“A primeira versão do projeto da SAE, elaborada por uma equipe formada por economistas, juristas, demógrafos e sociólogos, deverá sair em dois meses. Os responsáveis admitem que o objetivo é propor o que Paes de Barros [o economista Ricardo Paes de Barros, coordenador] chama de processo de imigração seletiva, que priorize a “drenagem de cérebros”, mas estabeleça limites para os estrangeiros que chegam fugindo da pobreza de seus países”.  Parece que o governo brasileiro abandonou a estratégia de construção de uma política migratória, começada durante o governo Lula, para promover estratégia de atração de mão de obra especializada, a fim de prover necessidades de setores específicos. Órgãos como a Secretaria Nacional de Justiça, a Secretaria de Direitos Humanos, o Ministério do Trabalho e o Conselho Nacional de Imigração não são mencionados como membros da equipe formada na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Leia aqui a reportagem do Jornal O Globo, que repercutiu no mundo inteiro (por exemplo, Brasil busca convertirse en un país de inmigrantes profesionales, no El País, de Madri).

Corporativismo contra a Defensoria, de André Luiz Machado de Castro

Ontem, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo completou seis anos. O período provocou uma significativa mudança no contexto de exclusão social perante a Justiça. Graças ao preparo, a competência e a dedicação dos apenas 500 defensores públicos e dos 330 servidores de apoio, atuantes em somente 29 cidades do Estado, as ações do órgão ultrapassaram as fronteiras desses poucos municípios, várias delas recebendo o reconhecimento de prestigiosas instituições de análise e avaliação de boas práticas no sistema de Justiça, como o Instituto Innovare. As vitórias processuais nos tribunais superiores em Brasília, por muito tempo acessados apenas por pessoas com recursos financeiros, contam-se aos milhares. Mas não foi por isso que a Defensoria Pública de São Paulo ocupou espaço recentemente no noticiário, e sim por conta de uma falsa crise e de um falso dilema com a OAB-SP. Leia aqui o texto integral do artigo publicado hoje na Folha de S. Paulo, p.A-3.

Eu vi o mundo, memórias de Cícero Dias (1907-2003)

São deliciosas as memórias inacabadas e bagunçadinhas do pernambucano Cícero Dias, reveladoras de um pedaço do mundão que correu – ele que detestava passaportes – numa linda edição da Cosacnaify (2011). Como flertou ou ao menos soube conviver com tão diversos “ismos”(por exemplo, regional, surreal ou cub), foi perseguido e até preso por outros (naz ou getul), Cícero aparece aqui como um contador despretensioso, no ritmo de quem conversa na sala, de histórias e palpites acumulados nas épocas e lugares extraordinários que quis ou teve que atravessar. Há muito sofrimento, contrabalançado por igual graça, como nesse trecho: “Lá fui eu, à tardinha, para a rue des Grands-Augustins, ateliê de Picasso. Ele vivia intrigado, colocava ou não colocava cor em Guernica. Interpelava muitos de seus amigos a esse respeito. Por sinal, encontrei-o com Chagall, com quem ele discutia, em frente à Guernica: cor ou não? O mestre russo coçava a cabeça e dizia: Deixa Guernica como tu fizeste. Deixa, não toca, deixa como está. O mestre russo se balançava como que dançando. Na saída, Picasso acompanhou Chagall até a rua. De volta ao ateliê, sentimos que estava aliviado, confortado. Ninguém melhor do que Chagall para opinar. Guernica ficou com seu primeiro bem-estar, forte, bem forte” (p. 116-7).

Já nas guardas da capa do livro, a gente descobre o figurino arretado que Cícero fez para o balé “Maracatu de Chico Rei”, com música de Francisco Mignone, argumento de Mário de Andrade e coreografia de Maria Olenewa. Ao longo da obra, o pintor conta como fez o cenário e os figurinos de outro balé, “Jurupari”, com música de Villa-Lobos, dançado pelo russo Serge Lifar, nos anos 1930. Seus amigos Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, e tantos outros, andam por essas páginas, ambientadas sobretudo nos engenhos de Pernambuco, em Recife, no Rio de Janeiro, em Lisboa e em Paris, com grandes e alternados saltos de décadas e personagens. É uma obra que ajuda a ver um pouco mais o mundo, e ele começa, claro, no Recife … (DV).

Imigração produz desemprego?

Nos Estados Unidos, um relatório contraria o senso comum e demonstra que acolher estrangeiros gera postos de trabalho para os nacionais

Por Carolina Mazzi, hoje no Sul 21 - Em tempos de crise como hoje, as políticas anti-imigração dos países desenvolvidos estão cada vez mais severas. Os Estados mais conservadores têm apoio popular para aprovar leis que expulsam, dificultam e impedem a entrada de estrangeiros, até mesmo as pessoas altamente qualificadas. Com a premissa de que o desemprego é culpa do alto número de estrangeiros nos países, as políticas têm contribuído para o aumento de uma onda de xenofobia e preconceito que se alastra pelo hemisfério norte. Mas um Relatório sobre imigração e trabalho da American Enterprise Institute and the Partnership for a New American Economy lançado na última terça-feira (20/12) sugere que o debate em relação aos imigrantes deveria ser diferente, pelo menos nos Estados Unidos. Segundo o documento, a imigração de pessoas altamente qualificadas contribui na criação de empregos para norte-americanos. A entidade afirma que os estrangeiros incentivam a inovação, a competitividade e tendem a abrir negócios com mais frequência que os nativos, criando mais ocupações e oportunidades. A cada cem vistos aprovados para estrangeiros, cerca de 183 empregos são criados para os norte-americanos, segundo o documento. The American, que publicou os resultados da pesquisa, afirma que ao invés de incentivar a imigração, as atuais políticas imigratórias americanas tendem não só a dificultar a entrada de estrangeiros, como também de expulsar os que já estão inseridos no país. A demora para conseguir um visto e o green card, tem levado muitos imigrantes a retornem para os seus países de origem ou buscar novas oportunidade em economias em ascensão. Com o aprofundamento da crise econômica no país, o número de pessoas que tentam atravessar a fronteira dos EUA com o México é o menor registrado nos últimos 10 anos. Com isso, muitos agricultores têm reclamando da falta de mão de obra para a colheita nas fazendas do sul, que tem gerado desperdício e prejuízo para os donos das terras. Norte-americanos.