Extensão Universitária

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” (Pedagogia do Oprimido)

Essa frase de Paulo Freire diz muito sobre nós e sobre a nossa metodologia. Todas as atividades que realizamos têm como pressuposto a “dialogicidade”. Palavra difícil, mas com um significado simples: diálogo. Construir um diálogo significa uma conversa sem hierarquia, em que locutor(a) e interlocutor(a) trocam conhecimento e experiências. Ou seja, quando fazemos qualquer coisa, não somos nós da universidade levando conhecimento ou saber acadêmico para uma população que não tem acesso a isso. Pelo contrário, vamos conversar com quem é igual à nós e tem tanta coisa pra oferecer quanto nós que estamos em uma universidade. Nós vamos aprender e ensinar tanto quanto as pessoas com quem falamos. Um pressuposto essencial da Extensão, portanto, é que não trabalhamos com hierarquização de conhecimentos, de modo que o conhecimento acadêmico e o popular estão equiparados em termos de valor.

Em  nosso trabalho extensionista, unimos os dois tipos de saberes, visando à produção de um terceiro tipo, mais democrático, socialmente referenciado, em que a teoria que aprendemos na universidade banha-se de realidade concreta e aplicabilidade para as classes oprimidas, que são nossos principais interlocutores. A Extensão não é uma forma de trabalho voluntário tal como conhecemos, nem uma forma de assistencialismo. Buscamos construir em conjunto com imigrantes o processo emancipatório das comunidades e, na troca, também nos emancipamos. Indivíduos emancipados, com consciência social e com ferramentas para lutar pelos seus direitos conseguem atuar nas fontes dos problemas que os afligem, ao invés de atacar apenas os sintomas.

Extensão Universitária na USP

Uma frase recorrente para quem defende a extensão popular na universidade é: “na USP, o que não é ensino nem pesquisa é extensão”.  Apesar das diversas normativas,  a “extensão” que ocorre na USP é algo vazio conceitualmente, correspondendo a uma grande miscelânea que inclui cursos de língua pagos, empresas juniores, hospitais universitários, cursos de MBA, nosso coletivo…  Diversas atividades que não têm nada em comum entre si senão o fato de não poderem ser consideradas nem ensino, nem pesquisa. Algo distante, sempre bom lembrar, do que dizem os Planos Nacionais de Extensão Universitária, que definem extensão da seguinte maneira:

A Extensão Universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade.

A Extensão é uma via de mão-dupla, com trânsito assegurado à comunidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade de elaboração da práxis de um conhecimento acadêmico. No retorno à Universidade, docentes e discentes trarão um aprendizado que, submetido à reflexão teórica, será acrescido àquele conhecimento.”

Tudo isso para dizer que – infelizmente – o que diferencia o EpM de muitos outros projetos alegadamente extensionistas é o fato de que o coletivo efetivamente busca manter um diálogo com a sociedade e com os movimentos sociais, tentando trazer, para dentro da universidade, os problemas relacionados à pauta de imigração. Ao mesmo tempo, tenta incidir sobre essa problemática, de forma que nós não sejamos “encastelados”, sem ver o que se passa fora dos muros da universidade e, assim, possamos impedir que ela se desenvolva apenas em função de outros interesses – geralmente os do mercado.

A importância da extensão se dá por diversos motivos. O primeiro e mais fundamental deles se deve ao distanciamento entre a universidade e a sociedade. O conhecimento acadêmico se desenvolveu de uma forma que o tornou totalmente descolado da realidade que o circunda, construindo uma bolha impenetrável. É por isso que ao entrarmos na universidades a maior parte do que aprendemos é em sentido abstrato, por falta de aplicação na realidade concreta. E é também por isso que a universidade não faz parte do dia-a-dia de grande parte das pessoas que estão fora dela, pelo contrário, é vista como algo idealizado e muitas vezes até inalcançável. Mas não deveria ser assim, é essa a proposta da extensão universitária: estourar a bolha que separa a sociedade da universidade.

Sem dúvidas é um processo difícil, lento e gradual, mas que tem muito a agregar ao conhecimento acadêmico e ao que se produz nos cursos de graduação e pós-graduação. Todas as atividades que fazemos fora da universidade devem retornar para dentro, de forma a agregar para toda a comunidade universitária, e não só aos membros do coletivo, e é nesse aspecto que o blog se encaixa. Assim poderemos cada vez mais incidir positivamente na sociedade na qual nos inserimos.

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Um pensamento sobre “Extensão Universitária

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