Eu vi o mundo, memórias de Cícero Dias (1907-2003)

São deliciosas as memórias inacabadas e bagunçadinhas do pernambucano Cícero Dias, reveladoras de um pedaço do mundão que correu – ele que detestava passaportes – numa linda edição da Cosacnaify (2011). Como flertou ou ao menos soube conviver com tão diversos “ismos”(por exemplo, regional, surreal ou cub), foi perseguido e até preso por outros (naz ou getul), Cícero aparece aqui como um contador despretensioso, no ritmo de quem conversa na sala, de histórias e palpites acumulados nas épocas e lugares extraordinários que quis ou teve que atravessar. Há muito sofrimento, contrabalançado por igual graça, como nesse trecho: “Lá fui eu, à tardinha, para a rue des Grands-Augustins, ateliê de Picasso. Ele vivia intrigado, colocava ou não colocava cor em Guernica. Interpelava muitos de seus amigos a esse respeito. Por sinal, encontrei-o com Chagall, com quem ele discutia, em frente à Guernica: cor ou não? O mestre russo coçava a cabeça e dizia: Deixa Guernica como tu fizeste. Deixa, não toca, deixa como está. O mestre russo se balançava como que dançando. Na saída, Picasso acompanhou Chagall até a rua. De volta ao ateliê, sentimos que estava aliviado, confortado. Ninguém melhor do que Chagall para opinar. Guernica ficou com seu primeiro bem-estar, forte, bem forte” (p. 116-7).

Já nas guardas da capa do livro, a gente descobre o figurino arretado que Cícero fez para o balé “Maracatu de Chico Rei”, com música de Francisco Mignone, argumento de Mário de Andrade e coreografia de Maria Olenewa. Ao longo da obra, o pintor conta como fez o cenário e os figurinos de outro balé, “Jurupari”, com música de Villa-Lobos, dançado pelo russo Serge Lifar, nos anos 1930. Seus amigos Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, e tantos outros, andam por essas páginas, ambientadas sobretudo nos engenhos de Pernambuco, em Recife, no Rio de Janeiro, em Lisboa e em Paris, com grandes e alternados saltos de décadas e personagens. É uma obra que ajuda a ver um pouco mais o mundo, e ele começa, claro, no Recife … (DV).

A Chegada, de Shaun Tan

As diferentes traduções do título da obra do australiano Shaun Tan talvez ajudem a explicar o tanto que ela contém: do original The Arrival (2006), passou a chamar-se algo como Onde vão nossos pais na edição francesa, ou Emigrantes na edição portuguesa. As palavras, porém, aparecem apenas no título, pois o livro dispensa não só a alfabetização, como qualquer outro requisito vinculado a idioma, tempo, idade ou lugar.

Diz a apresentação da edição brasileira (São Paulo, Edições SM, 2011): “O que impele pessoas a largar tudo para se aventurar em um país misterioso, um lugar sem amigos ou familiares, onde as coisas não têm nome e o futuro é uma incógnita? Estes quadrinhos sem palavras contam a história de cada refugiado, cada migrante, cada deslocado à força, em diferentes países e períodos históricos, homenageando a todos aqueles que tiveram de fazer uma viagem desse tipo”.  Resultado de 4 anos de pesquisa, os belos desenhos inspiram-se de numerosas referências, muitas delas fotografias do acervo do Ellis Island Immigration Museum, que datam de 1892 a 1954. Ou do cinema de Vittorio de Sica, ou da obra de Gustave Doré, como o próprio autor faz questão de registrar. As narrativas, inclusive de seu pai, vindo da Malásia para a Austrália em 1960, também subsidiaram as imagens, o que provavelmente explica a identificação imediata que qualquer viajante, ocasional ou não, experimenta ao ver algumas delas. A alucinante capacidade de adaptação do ser humano, para o bem e para o mal, emerge dessa história que todos nós já vivemos ou testemunhamos – ao menos um bom punhado dos detalhes que o autor retrata, com notável delicadeza. Para ver e rever, com a mala pronta ou depois da chegada (DV).

Sobre a Oficina “Estrangeiro Personagem”

Não foi um dia qualquer. Ontem, enquanto Dilma apresentava nas Nações Unidas um Brasil que não corresponde exatamente ao nosso, Erundina fazia malabarismos na Câmara dos Deputados por uma Comissão da Verdade decente.  Cheguei ao Memorial da Resistência de São Paulo sentindo-me, a um só tempo, feliz e contrariada: muito à vontade naquele belíssimo lugar, mas deslocada nesse meu país em que o preço das conquistas anda “pela hora da morte”. Eu estava lá para participar de uma invenção: após diversas atividades sobre a lei do estrangeiro (palavra que tanto nos incomoda), o projeto Educar para o mundo aproveitou a semana cultural da USP para trocar artigos, incisos e parágrafos por literatura, cinema e artes plásticas. Ao falar do estrangeiro como personagem, nossa convidada, a escritora Veronica Stigger, poderia ter escolhido uma das incontáveis imagens de navios de imigrantes chegando ao Brasil. Ou discorrido largamente sobre o Estrangeiro, de Albert Camus. Ou puxado da estante qualquer obra em que, por exemplo, um mero idioma agringalhasse uma pessoa. Mas estamos falando da autora de livros ousados como Os Anões, não tementes às supostas estranhezas, cuja percepção do estrangeiro dispensa os freios e boçais da nacionalidade. Assim, um pequeno e caloroso público jogou fora seu passaporte para pensar com Veronica sobre o tal lugar de origem. “ – Vocês são de onde?” Constatamos que a resposta depende mais do onde em que estamos do que aquele do qual viemos. Pode ser um país, uma região ou um bairro, mas também um desejo, um sentimento, ou sei lá o quê. Se é verdade que, objetivamente, para tornar-se estrangeiro basta sair do Brasil, também o é que, subjetivamente, sê-lo dispensa viagens. Pensando no estrangeiro como um ser deslocado, Veronica fez uma leitura profunda e divertida do estupendo conto O Sul, de Jorge Luis Borges. Depois de refletir sobre os dilemas do personagem de Borges, Juan Dahlmann, dividido entre o feitio germânico e las ganas de ser argentino, a plateia animou-se a contar um pouco de suas voláteis estraneidades. Surgiram, então, o avô russo de uma, o pai indonésio de outra; a rixa entre cearenses e pernambucanos, a resignação dos paulistanos e as neuras da gauchada. Rita Supahi lembrou da bombástica revelação feita por seu pai, nascido na Turquia, quando foi visitá-la na prisão, durante o regime militar brasileiro: um  tio de Rita havia participado da revolução turca!  Temendo encorajar os filhos a meter-se ainda mais na resistência ao golpe militar, ele havia guardado o precioso segredo: “a luta estava no sangue”. Veronica comentou também duas recentes exposições, que trabalham o ser/estar estrangeiro em outros planos. Na primeira, as imagens mostram que o discrime entre as pessoas varia entre a nacionalidade e a condição de negro, gay ou qualquer outro emblema. Na segunda, em relevo está a diferença pela língua estrangeira, que às vezes só de ler já aparta. Nossa oficina deu-se, ainda, ao luxo de contar com a presença do Eduardo Sterzi, escritor, professor e crítico literário que acaba de lançar o bárbaro Cavalo Sopa Martelo. Terminamos o dia cruzando a Praça da Luz para comer cachorros-quentes coreanos com a Veronica e o Eduardo, num cantinho do Bom Retiro em que apenas nós falávamos português e parecíamos turistas. Delícias de morarmos numa das capitais mundiais do deslocamento, e, depois desta oficina, um tanto mais versados na arte de conviver com ele (Deisy Ventura).

P.S.: Dentro de alguns dias, espero que poucos, o vídeo da oficina estará disponível aqui no blog. Conferi o verbete do Houaiss antes de defini-lo: “que não se pode perder; cujo ganho se tem como certo”. Isto é, imperdível.

O mapa e o território, autorretrato de Michel Houellebecq

Romance total, balanço do estado do mundo e autorretrato, labirinto metafísico de surpreendente maestria: com “O mapa e o território”, Michel Houellebecq assina um grande livro. Admitindo que uma das numerosas leituras deste texto, de densidade e riqueza impressionantes, seja a de uma visão de mundo rompida pela manufaturização de tudo, por levar à morte a autenticidade (o território ou o rincão) para melhor imitá-la, caricaturizando-a segundo a norma mundializada; rompida também pela ascensão do Rei-dinheiro, que tudo mata por onde passa, até mesmo os escritores, então o livro é também a prova de que Michel Houellebecq se recusa a manufaturar-se. Leia todo o comentário de Nelly Kaprièlan sobre o livro em Les inrockuptibles. Nas livrarias francesas a partir de 8 de setembro. Siga a revista pelo twitter @lesinrocks.