Uma revolução intelectual, por José Luís Fiori

Com certeza já se pode falar de uma “revolução
intelectual” e de um novo “paradigma”, porque já se consolidou uma nova 
maneira do continente olhar para si mesmo, para o mundo e para os seus
 desafios, assumidos como oportunidades e como escolhas, que devem ser 
feitas a partir de sua própria identidade e de seus próprios interesses. Jean Paul Sartre disse que “era mais fácil ser escravo do que senhor”, e 
talvez, de fato, seja mais fácil pensar como escravo, do que como senhor.
 Mas depois desta “revolução intelectual” da America Latina já não há mais
 necessidade de ninguém seguir pensando como escravo, ou mesmo como aluno 
primário das “civilizações superiores”.

Leia aqui o artigo publicado por Fiori, no Valor Econômico de hoje.

Enviado pelo Ribas (UFRJ)

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Esquizos

“Eu tenho vontade de dizer a esses italianos: escutem, vocês não lembram que já foram bolivianos?”, exclamou Maria Victoria Benevides, em meio ao abraço da Flávia Schilling, numa sala repleta e acolhedora da Faculdade de Educação da USP. O motivo do nosso encontro: a banca de Mestrado da Giovanna Modé, consagrada a um assunto bem incômodo. É possível, nas escolas de São Paulo, a matrícula de alunos sem documentos. As pífias estatísticas contam de 60 a 200 mil bolivianos residentes aqui na cidade – o certo é que, seja qual for o contingente, grande parte dele vive clandestinamente no Brasil. Pensou Giovanna: tudo bem, eles podem matricular os filhos, mas o que acontece durante e depois da matrícula?  E lá foi ela a campo, ver e ouvir os imigrantes e a comunidade à sua volta, ao mesmo tempo em que percorria a melhor literatura sobre migrações, educação e direitos humanos. A densidade teórica ilumina a compreensão das dezenas de depoimentos e afasta qualquer clichê. No texto, encontramos uma menina que não quer mais ser boliviana: “sou brasileira porque eu como miolo de pão e gosto mais de doce do que de salgado. Boliviano é meu pai”. Há também a mãe que sonha com uma escola separada para os bolivianos, pois a educação no Brasil é “fraca, ninguém respeita os professores e o ensino nada tem a ver com a realidade”. Ali está uma criança que sente falta das aulas de música, teatro e dança da escola na Bolívia: “aqui, nas aulas de arte, a gente só escreve”. Há, por sua vez, os brasileiros que, num debate durante a aula, dizem à professora que estão decididos a migrar para os Estados Unidos, onde ficarão ricos e serão bem tratados; então os coleguinhas bolivianos, em geral tímidos, irrompem em riso frouxo. Há igualmente a garota pop que os brasileiros pensam que é japonesa. Ora, só uma impecável escuta durante as entrevistas (postura ético-política que marca a obra da Orientadora, a Flávia) poderia permitir tamanha desenvoltura nestas falas, em que não há rastro de vitimização. Tampouco de ilusões ou ingenuidade. A referência à discriminação é constante. Há relatos de espancamento até a morte, e de estupro de imigrantes. Há o professor da escola municipal que confessa não saber o que fazer com os bolivianos: “eu sou negro, tenho uma bibliografia, já li muito para me encontrar. Mas em relação à América espanhola, sou totalmente ignorante”. De fato, os “Bolívia”, como são chamados pelos brazucas, vão ler o quê “pra se encontrar”? Por estas bandas, a imigração latinoamericana recente merece, como diz Giovanna, um “alarmante silêncio”. Ao menos em parte, a invisibilidade vincula-se às mudanças no modo de produção da indústria local de confecção, onde, atualmente, são raras as relações de emprego, mesmo as informais. A autora mostra que a fronteira explorador/explorado diluiu-se paulatinamente: numerosos bolivianos já possuem suas próprias oficinas de costura em casa, onde moram e trabalham parentes e amigos atraídos por eles, alguns apenas para juntar dinheiro e retornar à Bolívia, outros vindos para ficar. A propósito, depois de algum tempo, o intuito de permanência temporária ou definitiva também se dilui, e o sujeito parece não ser mais de lugar algum, nem saber onde quer estar no ano que vem. As máquinas de costura estão em meio aos móveis, em cômodos apertados e mal iluminados. O trabalhador volta a se confundir com o trabalho, como na escravidão, mas agora o Senhor não é uma pessoa, e sim uma situação. Num mercado instável, o trabalho se disputa, se contrata e é pago por peça. É preciso ter boas relações para conseguir encomendas. Pretensamente teríamos passado do reino do direito do trabalho ao do direito empresarial, como se não existisse uma brutal assimetria entre os atores. Aliás, ao comprar roupa nas lojas de grifes dos Jardins,  poucos sabem que um costureiro recebeu algo em torno de 30 centavos por unidade. O consumo, de fato, não é uma questão menor neste imbroglio. Nossa experiência de trabalho nas periferias mostra a flagrante uniformização do desejo. Embora os que têm menor acesso aos bens da vida, imigrantes ou não, sejam alvo de um novo tipo de racismo (sim, a ciência provou que raça não existe, mas aqui é sinônimo de laia, algo que existe pacas), eles geralmente nutrem os mesmos sonhos de quem os discrimina. Giovanna lembra a metáfora kafkiana das muralhas contra os nômades. O Imperador da China não parava de construir imensos muros no deserto, mas com enormes falhas entre eles. Ninguém entendia a razão, sobretudo porque já havia notícias de que os nômades estavam acampados na capital, justamente na praça em frente ao Palácio. Num primeiro momento, relacionei a metáfora à imigração controlada, ou seja, ao fato de que os Estados hoje escolhem quem pretendem receber, de acordo com as necessidades do mercado e enquanto elas durarem, mas depois os vínculos que se criam e a porosidade das fronteiras torna o controle absoluto tão impossível quanto violento. O problema é que, na estória, os nômades não pareciam ter a menor intenção de tomar de assalto o Palácio real. Salvo por força de uma completa distorção da realidade, eles não serviam como ameaça. Então pensei nas muralhas lacunares, ou em gestos como os de Sarkozy, como lamentos fascistas diante de uma pasteurização inevitável: a universalização contraditória do desejo e da miséria. Mas tem razão a Giovanna quando diz: “o imigrante é, em todo caso, um sujeito diferente”, que não queremos tornar igual, apenas incluir. No texto, não por acaso, ela cita o Educar para o mundo, e nos agradece “pela maneira dinâmica como vem articulando a universidade a outros atores fundamentais deste nosso campo, para além dos muros acadêmicos”. Enfim, a tarde de ontem foi um delicioso encontro entre e sobre diferentes. E assim que a dissertação for publicada, eu avisarei por aqui (DV).

Relatório Mundial de Ciência Social 2010

As ciências sociais, que continuam recebendo forte influência das universidades do Ocidente, estão ganhando terreno na Ásia – em especial a China – e na América Latina – com destaque para o Brasil. Esses são alguns dos resultados do Relatório do Conselho Internacional de Ciência Social (ISSC, sigla em inglês), publicado em parceria com a UNESCO. Intitulado “As separações do conhecimento”, trata-se de um relatório de abrangência mundial sobre as disciplinas da área. O Brasil está retratado no capítulo 3 do Relatório, no texto de  Regina Gusmão, intitulado “Desenvolvimento de capacidades de pesquisa em ciências sociais no Brasil”. A autora diz que “o numero de estudantes nos programas de mestrado e de doutorado nas universidades brasileiras aumentou mais do que 10 vezes, e o número de diplomas de mestrado e de doutorado concedidos por ano quase triplicou nos últimos 10 anos”. Veja mais informações sobre o relatório e o texto integral na página da UNESCO.

Postado por Clarissa Dri (IEP/Bordeaux)

Universidade, mecenato e mercado – Ricardo Antunes e Marcus Orione

Como seria termos um curso de ciências sociais mantido por uma grande montadora? Ou, ainda, discutirmos as complexas relações do direito do trabalho, sob o mesmo patrocínio? O ensino universitário tem papel vital para o desenvolvimento de qualquer país. É óbvio que, para a geração desse conhecimento, há necessidade de recursos. No entanto, ao se recorrer ao dinheiro privado, há evidente possibilidade de comprometimento dessa missão. Na pesquisa, subvenções particulares não raro levam à distorção dos fins públicos. O dinheiro investido, em geral, é destinado a áreas de interesse do próprio setor privado, relegando a um segundo plano projetos de natureza pública.

Leia aqui todo o artigo de Ricardo Antunes e Marcus Orione, publicado pela Folha de S. Paulo em 2/7/10, com ilustração de Orlando Pedroso.