Esquizos

“Eu tenho vontade de dizer a esses italianos: escutem, vocês não lembram que já foram bolivianos?”, exclamou Maria Victoria Benevides, em meio ao abraço da Flávia Schilling, numa sala repleta e acolhedora da Faculdade de Educação da USP. O motivo do nosso encontro: a banca de Mestrado da Giovanna Modé, consagrada a um assunto bem incômodo. É possível, nas escolas de São Paulo, a matrícula de alunos sem documentos. As pífias estatísticas contam de 60 a 200 mil bolivianos residentes aqui na cidade – o certo é que, seja qual for o contingente, grande parte dele vive clandestinamente no Brasil. Pensou Giovanna: tudo bem, eles podem matricular os filhos, mas o que acontece durante e depois da matrícula?  E lá foi ela a campo, ver e ouvir os imigrantes e a comunidade à sua volta, ao mesmo tempo em que percorria a melhor literatura sobre migrações, educação e direitos humanos. A densidade teórica ilumina a compreensão das dezenas de depoimentos e afasta qualquer clichê. No texto, encontramos uma menina que não quer mais ser boliviana: “sou brasileira porque eu como miolo de pão e gosto mais de doce do que de salgado. Boliviano é meu pai”. Há também a mãe que sonha com uma escola separada para os bolivianos, pois a educação no Brasil é “fraca, ninguém respeita os professores e o ensino nada tem a ver com a realidade”. Ali está uma criança que sente falta das aulas de música, teatro e dança da escola na Bolívia: “aqui, nas aulas de arte, a gente só escreve”. Há, por sua vez, os brasileiros que, num debate durante a aula, dizem à professora que estão decididos a migrar para os Estados Unidos, onde ficarão ricos e serão bem tratados; então os coleguinhas bolivianos, em geral tímidos, irrompem em riso frouxo. Há igualmente a garota pop que os brasileiros pensam que é japonesa. Ora, só uma impecável escuta durante as entrevistas (postura ético-política que marca a obra da Orientadora, a Flávia) poderia permitir tamanha desenvoltura nestas falas, em que não há rastro de vitimização. Tampouco de ilusões ou ingenuidade. A referência à discriminação é constante. Há relatos de espancamento até a morte, e de estupro de imigrantes. Há o professor da escola municipal que confessa não saber o que fazer com os bolivianos: “eu sou negro, tenho uma bibliografia, já li muito para me encontrar. Mas em relação à América espanhola, sou totalmente ignorante”. De fato, os “Bolívia”, como são chamados pelos brazucas, vão ler o quê “pra se encontrar”? Por estas bandas, a imigração latinoamericana recente merece, como diz Giovanna, um “alarmante silêncio”. Ao menos em parte, a invisibilidade vincula-se às mudanças no modo de produção da indústria local de confecção, onde, atualmente, são raras as relações de emprego, mesmo as informais. A autora mostra que a fronteira explorador/explorado diluiu-se paulatinamente: numerosos bolivianos já possuem suas próprias oficinas de costura em casa, onde moram e trabalham parentes e amigos atraídos por eles, alguns apenas para juntar dinheiro e retornar à Bolívia, outros vindos para ficar. A propósito, depois de algum tempo, o intuito de permanência temporária ou definitiva também se dilui, e o sujeito parece não ser mais de lugar algum, nem saber onde quer estar no ano que vem. As máquinas de costura estão em meio aos móveis, em cômodos apertados e mal iluminados. O trabalhador volta a se confundir com o trabalho, como na escravidão, mas agora o Senhor não é uma pessoa, e sim uma situação. Num mercado instável, o trabalho se disputa, se contrata e é pago por peça. É preciso ter boas relações para conseguir encomendas. Pretensamente teríamos passado do reino do direito do trabalho ao do direito empresarial, como se não existisse uma brutal assimetria entre os atores. Aliás, ao comprar roupa nas lojas de grifes dos Jardins,  poucos sabem que um costureiro recebeu algo em torno de 30 centavos por unidade. O consumo, de fato, não é uma questão menor neste imbroglio. Nossa experiência de trabalho nas periferias mostra a flagrante uniformização do desejo. Embora os que têm menor acesso aos bens da vida, imigrantes ou não, sejam alvo de um novo tipo de racismo (sim, a ciência provou que raça não existe, mas aqui é sinônimo de laia, algo que existe pacas), eles geralmente nutrem os mesmos sonhos de quem os discrimina. Giovanna lembra a metáfora kafkiana das muralhas contra os nômades. O Imperador da China não parava de construir imensos muros no deserto, mas com enormes falhas entre eles. Ninguém entendia a razão, sobretudo porque já havia notícias de que os nômades estavam acampados na capital, justamente na praça em frente ao Palácio. Num primeiro momento, relacionei a metáfora à imigração controlada, ou seja, ao fato de que os Estados hoje escolhem quem pretendem receber, de acordo com as necessidades do mercado e enquanto elas durarem, mas depois os vínculos que se criam e a porosidade das fronteiras torna o controle absoluto tão impossível quanto violento. O problema é que, na estória, os nômades não pareciam ter a menor intenção de tomar de assalto o Palácio real. Salvo por força de uma completa distorção da realidade, eles não serviam como ameaça. Então pensei nas muralhas lacunares, ou em gestos como os de Sarkozy, como lamentos fascistas diante de uma pasteurização inevitável: a universalização contraditória do desejo e da miséria. Mas tem razão a Giovanna quando diz: “o imigrante é, em todo caso, um sujeito diferente”, que não queremos tornar igual, apenas incluir. No texto, não por acaso, ela cita o Educar para o mundo, e nos agradece “pela maneira dinâmica como vem articulando a universidade a outros atores fundamentais deste nosso campo, para além dos muros acadêmicos”. Enfim, a tarde de ontem foi um delicioso encontro entre e sobre diferentes. E assim que a dissertação for publicada, eu avisarei por aqui (DV).

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3 pensamentos sobre “Esquizos

  1. Pingback: Bolivianos no Brasil « Brasil e Desenvolvimento

  2. Mudam os personagens mas a história se repete.
    1. Nos anos 50 estudei no Grupo Escolar Prudente de Moraes, em SP, que fica ao lado da Pinacoteca do Estado. Tinha uma colega boliviana, que em seu país estava na 7ª série e que no Brasil foi matriculada na 4ª do primário. Naquele tempo ela já reclamava da qualidade do ensino brasileiro…
    2. nessa mesma época, em que os italianos eram os explorados, uma tia e suas filhas, no porão de sua casa, costuraram saias para um lojista do Bom Retiro, por muitos anos. Um belo dia resolveram contar as saias; verificaram que ele as enganava quanto à quantidade…
    3. Há que se constituir um inimigo para justificar a existência de muralhas.

  3. Pingback: Fronteiras do Direito Humano à Educação: o caso dos imigrantes bolivianos nas escolas públicas de São Paulo | Educar para o mundo

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