O inverno da classe médica brasileira

Reproduzimos abaixo texto de autoria individual de Hugo Salustiano, um de nossos membros em 2013. Hugo escreveu a partir de sua participação em reunião da Congregação da Faculdade de Medicina da USP sobre o programa “Mais Médicos” do Governo Federal Brasileiro, assunto que tem estado na pauta das diversas organizações e ativistas envolvidos com migrações no nosso país.  

O inverno da classe médica brasileira

Fachada da Faculdade de Medicina da USP - © Cecília Bastos / Francisco Emolo / Jorge Maruta / USP Imagens

Fachada da Faculdade de Medicina da USP – © Cecília Bastos / Francisco Emolo / Jorge Maruta / USP Imagens

Há em frente da biblioteca da Faculdade de Medicina da USP um verdadeiro espécime de Platanus orientalis proveniente da ilha de Cós, terra onde nasceu o considerado “pai da Medicina”, Hipócrates. Há ali numa placa, junto à árvore, um poema de palavras bonitas e conteúdo vazio a ele dedicado. No final, após o poema, um pedido: “QUE SOB A COPA FRONDOSA, O MÉDICO VERDADEIRO E AMADO, O PAI DA MEDICINA PROTEJA ESTE TEMPLO DE NOSSAS OBLAÇÕES”. Olhando para o alto, porém, é possível constatar que não há copa frondosa; os galhos estão secos, parecem mortos. Deve ser do inverno que passa por ali.

Presenciei, ao entrar hoje na sala 3000 para assistir à Congregação da FMUSP sobre o programa “Mais Médicos”, uma classe médica de ideias de galhos pelados refletida na bela retórica vazia, tal qual o poema que li no jardim ao sair de lá antes do final, desiludido. Ressalva: sou injusto com o poeta e aluno da turma de 1942 ao compará-lo com os representantes das entidades médicas que hoje discursaram. Se seu poema é vazio, ao menos não é, como as falas dessa última, minado de contradições.

O ponto central que irei abordar é o que concerne à vinda dos médicos estrangeiros ou brasileiros formados em universidades de fora. Parte apoiava a vinda, parte não apoiava. Os que apoiavam, notei, procuravam inutilmente se desvencilhar da imagem da xenofobia, afirmando não serem de modo algum contra a vinda deles, sob a condição de serem submetidos ao Revalida – o que por si só é uma contradição quase insuportável.

Contradição insuportável posto que o Revalida age como uma muralha chinesa para impedir que quem se forme fora do Brasil venha exercer a profissão aqui. Ele parece se preocupar menos com a qualidade do profissional vindo de fora do que com o impedimento de sua vinda; age pela lógica de que “eles” vem roubar “nossos” empregos; estabelece uma incompatibilidade e uma impermeabilidade dos métodos nacionais com os estrangeiros.

Assim, a xenofobia é intrínseca ao exame; defendê-lo é defender que tais médicos não venham. E o contrário – não defendê-lo – não implica que “a escória” dos médicos virá ao país, ou que será criada uma categoria de “médicos de segunda classe” para uma “população de segunda classe”. Implica, principalmente, em acreditar um exame justo e funcional para remediar uma situação social de emergência.

Não obstante, aquela sufocante sala marrom-escura preenchida com o branco dos jalecos (e das cútis), com ternos, gravatas e uma imensa bajulação mútua gabava-se de haver produzido, naquela faculdade, tal exame. Um dos convidados, inclusive, o descreveu como excelente e relativamente fácil se comparado a outras provas que os médicos têm que fazer. Fingiam, descaradamente, desconhecerem os efeitos implícitos da dificuldade que deliberadamente estabeleceram para o teste. Fingiam estarem preocupados, sempre em primeiro lugar, com a saúde pública. Fingiam não serem corporativistas. Fingiam tudo isso e, no final das contas, agiam de maneira oposta.

Os convidados, um após o outro, tomavam a palavra para concordarem entre si e cerrar as fileiras do corporativismo. Um professor, exaltado, condenou o “nosso terrível executivo” de “torturar continuamente a Constituição, como na implantação das cotas na Universidade”. Outra docente afirmou ser “um crime” a atitude do governo. Um senhor, aparentemente muito popular e que lamento não saber o nome, gabava-se com a humildade característica da falsa modéstia que Dilma, Lula e Padilha o telefonavam diversas vezes. A presidenta, inclusive, teria pedido que ele maneirasse nas críticas ao projeto. Heroicamente, ele bateu o pé, pela segurança do povo brasileiro e dos médicos contra essa afronta.

O ápice da inconsciência social se deu com um convidado que trabalhava, há anos, com dados sobre a medicina e o sistema de saúde brasileiro. Ele afirmava que sim, não havia médicos suficientes no país. Que não, não se deveria contratar estrangeiros sem que estes passassem pelo Revalida (logo, não se deveria corrigir o déficit). E concluía, genialmente, que não havia solução no curto prazo para o problema do sistema de saúde brasileiro; só haveria solução a médio e a longo prazo.

Eu gostaria muito de ver esse senhor chegar na periferia de qualquer cidade e dizer para o cidadão: “desculpe, só temos solução para daqui a dez anos. Até lá, boa sorte e adeus”.

Bem, então qual é a proposta do bloco homogêneo que é a classe médica brasileira?

Não há proposta. Do discurso do Centro Acadêmico da Medicina ao do Conselho Federal, passando por políticos engajados na causa e diretores de associações médicas, o blábláblá é o mesmo: palavras bonitas para dizer que o investimento deve ser aumentado, mais equipamentos comprados, mais unidades construídas, ampliação com qualidade de cursos de medicina. Evidentemente que sim. Todos queremos isso. Mas o pobre que não tem acesso quer um médico “pra ontem”, nem que ele atenda na cozinha da casa do paciente.

Porém, nossa classe médica, nem um pouco corporativista, não liga muito para isso. Ela passa a anos-luz, sem pudor nenhum, do pragmatismo. Ela pretende salvar a população que não tem acesso privando-a do atendimento de médicos estrangeiros “de segunda categoria” – afinal, são incapazes de transpor um exame feito para não ser transposto. Porque, melhor e mais humano do que abrir mão do Revalida e aplicar provas justas que procurem solucionar o problema no curto prazo – já que assumidamente não há médicos suficientes – é deixar essa população à mercê da sorte.

Ela milita, sobretudo, por um diálogo democrático ao mesmo tempo em que, em outra fatal contradição, considera não ser de urgência a questão (logo a MP 621 que cria o Mais Médicos seria injustificada). Engraçado; a impressão é que as pessoas na rua, quando a onda de protestos transcendera abertamente a questão das tarifas, determinou que a questão da saúde era prioritária. Talvez legítimos sejam apenas os protestos dos que usam jaleco e estetoscópio fora do contexto.

Sentei, desiludido, num banco no jardim da faculdade. Fui embora antes do final da congregação, já que os próprios convidados, otimistas, afirmavam apenas “chover no molhado”. Grande ironia: quando fui embora, vi um deles – o que gabava-se de falar por telefone com Lula, Dilma e Padilha – indo embora em um suntuoso Porsche prateado.

Pobre Hipócrates. Deve ter sido dispensado de debaixo daquela copa que, se foi frondosa, o foi há muito tempo atrás. A classe médica brasileira hoje, pela força e homogeneidade do discurso, não precisa que ninguém além dela mesma a proteja.

Obs.: Deixo claro que de maneira alguma estou aqui apoiando todos os pontos que o Mais Médicos tem. Abordo a questão da xenofobia inerente à resistência da vinda de médicos estrangeiros. Há outros motivos para não aceitá-la, como a questão dos direitos trabalhistas. A discussão aí é outra.

Escrito por Hugo Salustiano, revisado por Allan Greicon Macedo Lima – 19/07/2013

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