Encontro com Julio Groppa Aquino

Há três anos, já em nossos primeiros passos na Escola Municipal Infante D. Henrique (Canindé, São Paulo – SP), a tal da indisciplina emergiu no diálogo entre alunos, pais e professores como a grande vilã do ambiente escolar. No debate que organizamos após a exibição do filme Entre os muros da escola, em 2009, tanto as opiniões ferrenhas como os profundos silêncios causaram-nos uma forte sensação de despreparo. Por isto pedimos ajuda à Julio Groppa Aquino, na Faculdade de Educação da USP – afinal, “somos de R.I., não somos especialistas em educação”. Ele exclamou: “ainda bem” ! Desde então, não contentes em apenas lê-lo, tentamos conciliar agendas e calendários para tê-lo conosco na escola. O que ocorreu, enfim, quinta passada, 17 de novembro, quando Julio mostrou-nos uma parte da imensa floresta escondida pela árvore dos chavões e chororôs que atazanam a educação brasileira.

Na penumbra da sala de leitura da escola (faltou energia, mas só a elétrica), Julio avançou em nosso imaginário com o viço de um metaleiro fazendo roncar uma daquelas enormes motocicletas prateadas. Avisou que suas ideias eram descartáveis, desprovidas de pretensão normativa, e que sua fala seria quase insuportável. Sabia do risco de ser o “estrangeiro” que mete a colher numa espécie de briga de marido e mulher, que é a tensão constante entre professores e alunos. Com rigor e franqueza, foi descosturando a circularidade do discurso dos professores. Enfrentou mitos como o da “famílias desestruturadas” ou o “não é possível educar sem as famílias”.  Mostrou que grande parte do mal-estar docente está relacionado à democratização da escola que ocorreu nas últimas décadas. De fato, hoje é preciso educar uma impressionante massa, dotada de escasso acesso aos bens da vida, em grande parte filha de quem nunca foi à escola, o que desconcerta o docente forjado na escola para poucos que o formou. Logo, embora defendamos incondicionalmente o direito à educação, ainda temos grandes dificuldades em pensar práticas pedagógicas para todos e quaisquer. E o descrédito em relação ao presente e ao futuro dos que se adaptam dificilmente às expectativas sociais deteriora o pacto fundamental da educação: a aposta do professor na capacidade de aprender de cada um, seja ele quem for – filho de trabalhador, migrante ou desempregado, e também daqueles que foram etiquetados como putas, vagabundos ou bandidos. Mas, afinal, que práticas pedagógicas poderiam reconstruir o amálgama escolar?

Para Julio, ensinar é compartilhar um pasmo; é descortinar, diante do aluno, uma inquietação e um grande amor, o seu amor pelos livros, pela geografia, pela matemática, pelas línguas… Em lugar de obediência, parceria. Nosso convidado chamou a atenção para o fato de que os alunos considerados difíceis, quando engajados numa parceria, são os mais colaborativos.  Não deu receitas, pois não acredita nelas. Mas leu um poema de Manoel de Barros que divertidamente revela uma das incontáveis surpresas do aprender. Ajudou-nos a compreender esse momento da história do Brasil em que a educação está na moda (só se fala de educação em saúde, em meio-ambiente, nas empresas…),  mas os professores, vitimizados, sentem-se demodés. Paradoxalmente, achamos que só nós sabemos o que de fato se passa na escola, mas somos capazes de reproduzir bobagens que qualquer celebridade estulta cospe sobre educação. Somos reféns das representações e idealizações que carregamos, incapazes de enfrentar o novo como algo instigante. A ditadura da prática, essa tal de prática que perigosamente ungimos com a chancela da verdade, asfixia a nós e a nossos alunos. Por tudo isto, e por muito mais que Julio nos trouxe e não cabe neste post, quinta-feira vivemos – e sofremos – um dos nossos melhores momentos na escola. Caóticas, lugares de pensamento e de conflito, nossas escolas são fascinantes por isso mesmo. E, vendo-as desnudas, fomos conduzidos pelo Julio a uma espécie de paixão à segunda vista (Deisy Ventura).

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Um pensamento sobre “Encontro com Julio Groppa Aquino

  1. Excelente relato, lamento muito não ter tido a possibilidade de participar desse dia tão incrível, uma verdadeira vitória do projeto que esperou tanto tempo por isso e, mais ainda, um verdadeiro aprendizado para todos os envolvidos. Parabéns a todos!

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