Sobre a Oficina “Estrangeiro Personagem”

Não foi um dia qualquer. Ontem, enquanto Dilma apresentava nas Nações Unidas um Brasil que não corresponde exatamente ao nosso, Erundina fazia malabarismos na Câmara dos Deputados por uma Comissão da Verdade decente.  Cheguei ao Memorial da Resistência de São Paulo sentindo-me, a um só tempo, feliz e contrariada: muito à vontade naquele belíssimo lugar, mas deslocada nesse meu país em que o preço das conquistas anda “pela hora da morte”. Eu estava lá para participar de uma invenção: após diversas atividades sobre a lei do estrangeiro (palavra que tanto nos incomoda), o projeto Educar para o mundo aproveitou a semana cultural da USP para trocar artigos, incisos e parágrafos por literatura, cinema e artes plásticas. Ao falar do estrangeiro como personagem, nossa convidada, a escritora Veronica Stigger, poderia ter escolhido uma das incontáveis imagens de navios de imigrantes chegando ao Brasil. Ou discorrido largamente sobre o Estrangeiro, de Albert Camus. Ou puxado da estante qualquer obra em que, por exemplo, um mero idioma agringalhasse uma pessoa. Mas estamos falando da autora de livros ousados como Os Anões, não tementes às supostas estranhezas, cuja percepção do estrangeiro dispensa os freios e boçais da nacionalidade. Assim, um pequeno e caloroso público jogou fora seu passaporte para pensar com Veronica sobre o tal lugar de origem. “ – Vocês são de onde?” Constatamos que a resposta depende mais do onde em que estamos do que aquele do qual viemos. Pode ser um país, uma região ou um bairro, mas também um desejo, um sentimento, ou sei lá o quê. Se é verdade que, objetivamente, para tornar-se estrangeiro basta sair do Brasil, também o é que, subjetivamente, sê-lo dispensa viagens. Pensando no estrangeiro como um ser deslocado, Veronica fez uma leitura profunda e divertida do estupendo conto O Sul, de Jorge Luis Borges. Depois de refletir sobre os dilemas do personagem de Borges, Juan Dahlmann, dividido entre o feitio germânico e las ganas de ser argentino, a plateia animou-se a contar um pouco de suas voláteis estraneidades. Surgiram, então, o avô russo de uma, o pai indonésio de outra; a rixa entre cearenses e pernambucanos, a resignação dos paulistanos e as neuras da gauchada. Rita Supahi lembrou da bombástica revelação feita por seu pai, nascido na Turquia, quando foi visitá-la na prisão, durante o regime militar brasileiro: um  tio de Rita havia participado da revolução turca!  Temendo encorajar os filhos a meter-se ainda mais na resistência ao golpe militar, ele havia guardado o precioso segredo: “a luta estava no sangue”. Veronica comentou também duas recentes exposições, que trabalham o ser/estar estrangeiro em outros planos. Na primeira, as imagens mostram que o discrime entre as pessoas varia entre a nacionalidade e a condição de negro, gay ou qualquer outro emblema. Na segunda, em relevo está a diferença pela língua estrangeira, que às vezes só de ler já aparta. Nossa oficina deu-se, ainda, ao luxo de contar com a presença do Eduardo Sterzi, escritor, professor e crítico literário que acaba de lançar o bárbaro Cavalo Sopa Martelo. Terminamos o dia cruzando a Praça da Luz para comer cachorros-quentes coreanos com a Veronica e o Eduardo, num cantinho do Bom Retiro em que apenas nós falávamos português e parecíamos turistas. Delícias de morarmos numa das capitais mundiais do deslocamento, e, depois desta oficina, um tanto mais versados na arte de conviver com ele (Deisy Ventura).

P.S.: Dentro de alguns dias, espero que poucos, o vídeo da oficina estará disponível aqui no blog. Conferi o verbete do Houaiss antes de defini-lo: “que não se pode perder; cujo ganho se tem como certo”. Isto é, imperdível.

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2 pensamentos sobre “Sobre a Oficina “Estrangeiro Personagem”

  1. Eduardo Sterzi acabou de lançar “Cavalo sopa Martelo”, e Veronica Stigger, também pela Dobra Editorial, “Massamorda”. No livro dela, também encontramos uma reflexão sobre o estranho/estrangeiro, condição a que a literatura nos remete, revelando a estranheza do próprio mundo.

  2. Parabéns pela Oficina,

    Realmente, talvez a única forma de entender os traços da delirante condição que o ser humano se coloca como indivíduo – mas também como sociedade – ao “estrangeiro” seja a associação com a arte, nesse caso, a literatura. O desprezo com o diferente e com o desconhecido – aquele que não pertence ao seu núcleo de identidade – é uma característica de violência, e não deve ser minizada.

    A atual situação financeira da europa está plantando vento, e a tempestade da intolerância, está cada vez mais próxima.

    Um abraço, Cícero.

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