Sobre o dedo acusador, de Celso Amorim

Complicado o artigo que o Ministro Celso Amorim publicou, hoje, na Folha de S. Paulo (leia aqui). Ele tem razão ao denunciar a hipocrisia de países que são grandes violadores de direitos humanos, mas selecionam os Estados com quem nutrem antagonismos para apontá-los, com o dedo acusador, como os monstros do planeta. Também está certo ao dizer que as Nações Unidas possuem um sistema falho de monitoramento da efetividade dos direitos humanos no mundo. E o mais importante dos seus acertos: opõe-se ao isolamento e à estigmatização de um punhado de “países-párias” como método para fazer avançar os sistemas violadores de direitos. No entanto, o bebê do humanismo parece ir junto com a água do banho de realismo ministerial. Que grande parte dos denunciados seja não mais que adversária conjuntural dos Estados Unidos, não exclui a evidência de que a denúncia, de todos os violadores – além da afirmação, em público, de que violar direitos é algo inaceitável, seja onde for –  é fundamental para qualquer sistema baseado justamente na persuasão defendida pelo Ministro. Ora, qual seria a outra persuasão que não a pública? A de corredores e barganhas não somente configura uma diplomacia anacrônica, como dispensa a prestação de contas de todos os envolvidos. Jeitinho pra resolver casos mais graves não melhora a cultura política de ninguém. Dúvidas sobre o que está acontecendo, de fato, em cada caso concreto de violação de direitos, tampouco. Mas o pior não é isto. O Ministro justifica sua posição pela “natureza conciliadora do povo brasileiro”. Uma rápida leitura dos relatórios sobre o estado da tortura e das execuções sumárias no Brasil de hoje, para não falar na desigualdade econômica e social, desmente o Ministro e desconstitui o argumento.  Não há conciliação, há submissão e exploração. Enfim, se é para usar metáforas antropomorfas, concluo que quem defende os direitos humanos continuará chupando o dedo (DV).

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Um pensamento sobre “Sobre o dedo acusador, de Celso Amorim

  1. Sexta, assisti a uma conferência do Amorim no IEA-USP. Ao ser questionado sobre os direitos humanos, o ministro mencionou seu artigo que seria publicado e disse nestas (ou muito semelhantes) palavras: “Em DH’s nossa grande preocupação é como melhorar concretamente a situação das pessoas; e não fazer grandes posicionamentos ou colocar um papel na parede.”
    Uma lei sancionada dia 21 de junho promoveu Vinícius de Moraes postumamente ao cargo de ministro de primeira classe da carreira de diplomata – com direito a cerimônia, Lula e placa entregue a ultima mulher de Vinícius. O comentário de Amorim: “A promoção a Vinícius não só faz jus a esta casa, mas resgata o próprio Itamaraty, eliminando os últimos vestígios de uma época sombria”. Quem dera fosse só contraditório; parece que o ministro não sabe que a exoneração de um diplomata é de longe um dos últimos vestígios a ser eliminados da tal “época sombria”…

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