Breve comentário sobre Brasil e Irã

Um jornalista de “O Globo”, numa entrevista agora há pouco sobre o Irã, perguntou-me se o Brasil não havia ficado “com o mico na mão”. Eu respondi que o bicho estava no colo da Hillary. Falando sério, há 3 aspectos que, a meu juízo, não importam um pepino quando se avalia a pertinência da posição do Brasil em relação ao Irã.

A primeira é a decisão que o Conselho de Segurança venha a tomar. Trata-se de um órgão congelado no tempo, que reflete a defunta equação de poder do final da Segunda Guerra. Como florão murcho da guerra fria, o CS tem utilizado um sistema de sanções duplamente equivocado: à la carte, eis que os grandes violadores do direito internacional, como Israel ou EUA, permanecem impunes, graças ao sistema de veto; e ineficaz, pois, ou as violações persistem, ou se consuma, ao final, o recurso à força que o CS tem por missão evitar. Logo, o Brasil, não dispondo de poder de veto, não poderia mesmo evitar que o desmoralizado organismo cometesse mais um erro, ou seja, deflagrasse sanções desastradas, a exemplo do que fez com o Iraque. Estas sanções causam danos sobretudo à população civil, conduzem ao acirramento das tensões, fomentam o terrorismo (último recurso justamente dos que foram banidos das instituições e delas nada mais esperam), além de desaguar em conflitos armados, por vezes sem deslinde plausível, como é caso do Afeganistão. Na pior das hipóteses, o Brasil não corroborou o equívoco e ofereceu uma alternativa real a ele.

A segunda irrelevância é o que os Estados Unidos acham. Quando os EUA querem intervir, tentam usar o CS. Se não dá certo, atuam unilateralmente, como foi o caso do Iraque, em que Washington agiu sem o apoio do CS, mas também sem oposição do CS, simplesmente porque vetou qualquer reserva. Basta olhar o mapa da região e se entende os interesses econômicos e militares em jogo. A ação armada para destruição dos arsenais militares do Irã, que já foi objeto de estudos detalhados, causará danos humanos e ambientais imensuráveis, como já comentei, em nosso antigo blog, no ano passado: http://educar-para-o-mundo.blogspot.com/2009/05/questao-nuclear-no-oriente-medio.html  Obama vem sendo uma grande decepção, neste dossiê e em outros. A opinião pública, inclusive a norte-americana, percebe com cada vez maior desconfiança a política para o Oriente. E o endurecimento em relação ao Irã custará mais caro aos Estados Unidos, em parte graças ao Brasil.

A terceira falsa questão é se o Irã cumprirá ou não o acordo. Supõe-se que sim, pois a Turquia, em plena barganha pela adesão à União Européia, não se teria lançado neste compromisso por acaso. No entanto, se sanções forem adotadas, jamais saberemos se o acordo seria cumprido ou não.

Em resumo, as declarações do ex-Ministro Lampreia e de outros faz-me recordar a antiga questão freudiana de saber se a angústia é a causa do recalque, ou vice-versa. Depois de anos de uma política externa frívola, medíocre e subserviente, o Brasil começa a agir sem pedir permissão ao mundo desenvolvido, o que deveria ser, mais do que natural, uma obrigação, diante de uma ordem internacional que não favorece os países em via de desenvolvimento. Gostaria que toda a política externa brasileira fosse assim, o que infelizmente ainda está longe de ocorrer. Em qualquer caso, a mediação do acordo com o Irã é um progresso e uma grande vitória do Brasil. O problema é que o mico está, de fato, na retina de quem olha, não é mesmo?

Postado por Deisy Ventura

Leia aqui a matéria publicada hoje no Le Monde: O Sul emergente quer seu lugar na negociação.

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Um pensamento sobre “Breve comentário sobre Brasil e Irã

  1. Belo texto, Deisy.

    Em primeiro lugar, acho que mesmo que o Brasil não houvesse conseguido o acordo, apresentar-se como um canal de diálogo civilizado com o Irã já demonstrava para a opinião pública interna que o País estava consolidando a opção por uma política externa assertiva fora de nosso continente. Isto não só não foi reconhecido e valorizado, como toda a ação, desde o início, virou motivo de preocupações fantasiosas ou de pilhéria.

    O sucesso nas negociações, por outro lado, retira o País do foco da opinião pública nacional, leiga ou especializada, e o coloca também sob os holofotes da tal comunidade internacional. Já sabemos que aqui não mudou muita coisa: o tema continua sendo tratado como uma espécie de erro de estratégia do Brasil, que encontraria paralelo apenas na seleção de Dunga. Ignora-se solenemente as repercussões desastrosas que o caminho das sanções acarretam. Mas é algo que não me surpreende.

    O que me chama a atenção é que não vi em nenhum dos meios de comunicação que acessei qualquer notícia relacionada à reação da opinião pública internacional, nada que sinalizasse pressão da sociedade civil para que fossem exploradas as oportunidades de consenso e diálogo abertas pelo acordo em detrimento de mais sanções/escalada da violência. Eu posso estar apenas mal informado, mas era de se esperar, diante dos exemplos mais que recentes das conseqüências deste curso de ação, que houvesse mobilização maciça em torno da solução acordada. Eu não estou certo se algumas práticas nada humanitárias do Irã acabaram por afastar a complacência dos movimentos internacionais de defesa dos DH (vozes importantes pela paz), porque os EUA parecem caminhar sem esforço algum por uma estrada que eles já trilharam antes. E na onde sabemos onde vai parar.

    Para mim a ausência de uma mobilização civil internacional explica algumas incoerências na postura norte-americana, que semana antes dava sinais de que o acordo poderia construir a confiança necessária para novas rodadas diplomáticas e, pouco depois de sua assinatura, passou a buscar ativamente um acerto em torno de um pacote de sanções (com algumas concessões importantes para o apoio da Rússia). Ou seria apenas a Sra. Clinton e sua vontade (declarada em campanha eleitoral) de obliterar o Irã?

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